Duto é o Modal do Futuro – Os avanços na área dutoviária retratam o potencial dos dutos em um novo cenário energético – Marcelino Guedes Gomes, partner e cofundador da consultoria PIPELINEBRAZIL

“Sem dúvida, o duto terá um papel importante no futuro energético em nosso planeta”, afirma um dos maiores especialistas da área de dutos do país, Marcelino Guedes Gomes, partner e cofundador da consultoria PIPELINEBRAZIL, uma plataforma associativa que reúne jovens talentos e profissionais com experiência em dutos.

Engenheiro mecânico formado pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), com mestrado em engenharia civil na área de mecânica dos sólidos pela Coppe – UFRJ ( Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia, da Universidade Federal do Rio de Janeiro), Guedes tem um sólida trajetória na área de dutos na Petrobras, onde ocupou diversas funções em quase 34 anos de atuação. Ainda na Petrobras, no final de 2015 tornou-se presidente do Centro de Tecnologia em Dutos – CTDUT, iniciativa pioneira na América Latina, criada em 2006,por técnicos do
Centro de Pesquisas e Desenvolvimento da Petrobras (Cenpes) – no qual Marcelino Guedes também atuou -, em parceria com a Transpetro, tendo a PUC-Rio como gestora do convênio.

Membro do comitê organizador da Rio Pipeline 2021, que está sendo realizado pelo Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás (IBP), Marcelino Guedes destaca que é fundamental mais investimentos em pesquisa e desenvolvimento na área de dutos, tanto para os ambientes onshore como offshore, pois o segmento terá uma presença expressiva no setor energético, como ocorre hoje nos Estados Unidos, onde o midstream tem um papel crucial nesse cenário.”

Oil & Gas Brasil: Em primeiro lugar, gostaria que fizesse um overview dessa Rio Pipeline 2021,que se realiza entre os dias 9, 10, 11 de novembro de 2021, sob o tema “Conhecimento e energia para um novo mercado. O que vocês estão trazendo de novo para a discussão nesse setor?

Marcelino Guedes: O Rio Pipeline começou na cidade do Rio de Janeiro em 1997, por iniciativa de profissionais do setor de dutos, que organizaram o primeiro seminário sobre o tema. Ou seja, tem 24 anos de estrada…Quando fomos pegos pela
pandemia, pensamos até em postergar para 2022, porém acabamos decidindo por fazer a Rio Pipeline em 2021 devido até mesmo à parceria que temos com a International Pipeline Conference, realizada pela ASME (American Society of Mechanical Engineers) em Calgary, no Canadá, para mantermos os dois eventos em anos alternados.

O gás natural tem grande peso na edição deste ano, em função da reestruturação das grandes transportadoras desse energético no Brasil. Não é um evento essencialmente técnico, mas um pouco mais generalista, pois vamos abordar transição
energética, marco regulatório, negócios, mas com foco maior no gás natural: geração térmica, produção offshore de gás,
escoamento etc. Enfim, tudo o que gira em torno do setor de gás.

Oil & Gas Brasil: Com o pipeline ‘permeando’ todos os debates…

Marcelino Guedes: Sim. Vamos discutir o futuro do pipeline, pois trata-se de um modal de transporte não somente da transição energética, mas da economia de baixo carbono. Isso porque tem um impacto muito menor comparado a outros modais: por ser uma estrutura quase sempre enterrada, não gera emissão e não perturba a flora e a fauna. Será o modal do futuro, do hidrogênio, do CO2, dos biocombustíveis…É o modal de transporte que vai, de forma transversal, ter forte protagonismo nas próximas décadas.

Oil & Gas Brasil: Quais são ainda os grandes desafios para se alcançar a excelência operacional em centros de controle de dutos? E quais os avanços mais importantes nas últimas décadas?

Marcelino Guedes: As tecnologias digitais estão presentes nas atividades de dutos há muitos anos, desde o início das
estruturação dos centros de controle remotos, com dutos controlados a longas distâncias usando as tecnologias digitais, toda a parte de acionamento por satélite. Foi a área na indústria do petróleo onde foram feitas as primeiras aplicações de tecnologias digitais de controle e acionamento e de uso da comunicação por satélite e toda de uso de imagens digitais de satélites. Mas estamos em outro momento: o da revolução digital, com novas ferramentas mais sistemáticas: machine learning, big data, AI (inteligência artificial), IoT (internet das coisas). Um conjunto de ferramentas e soluções em desenvolvimento para tornar a operação mais segura. Elas já estão sendo utilizadas não somente na parte de sistemas de controle operacional como também de monitoramento da integridade desses ativos. As inspeções com pigs instrumentados, que geram uma quantidade enorme de dados que são processadas por outras ferramentas e robôs que processam e interpretam os dados e recomendam quando e onde devemos fazer reparos ou em que locais fazer intervenções.

Oil & Gas Brasil: Os sensores terão um grande papel também…

Marcelino Guedes: O futuro será ainda mais fantástico com um fenômeno que chamamos de ‘sensor engineering’
– engenharia de sensores – com a utilização de muitos mais sensores ao longo dos dutos, das faixas, que nos permitirão ter uma quantidade muito maior de dados, informações… e ai sim vamos conseguir utilizar todo o potencial das demais ferramentas digitais, como machine learning, inteligência artificial. Estamos somente começando. No futuro vamos ter centros de controle com poucos operadores, com tudo interligado, com sensores ao longo das faixas, imagens de satélites. Tudo sendo controlado por sistemas inteligentes, supervisionados pelo homem, contribuindo para termos operações cada vez mais seguras. Isso não vai demorar muito. É uma questão de tempo, e não vai demorar muito e será realidade em algumas operadoras.

Oil & Gas Brasil: Quais os avanços tecnológicos mais importantes nas últimas décadas?

Marcelino Guedes: Acredito que os avanços mais importantes foram, primeiro, os centros de controle e supervisão. Depois as tecnologias de inspeção, como os PIGs instrumentados, cada vez mais sofisticados e precisos na detecção e localização de defeitos. E por último, vieram os sistemas mais eficientes de detecção de vazamento, com integração de sistemas de fibra ótica ao longo das faixas, possibilitando o sensoriamento remoto na detecção e localização de invasão física das faixas e até mesmo de vazamentos e, consequentemente, minimizando riscos de impactos na sociedade e no meio ambiente. Creio que estes são os três avanços mais significativos nas últimas décadas no setor dutoviário.

Oil & Gas Brasil: Quais as tecnologias mais importantes hoje para o gerenciamento de integridade de dutos onshore (altamente impactados pela ação humana) e offshore (submetidos a condições severas em águas cada vez mais profundas)?

Marcelino Guedes: Além do que já citamos, em relação à integridade de dutos, temos também importantes avanços no que diz respeito a tecnologia de novos materiais. Tanto no segmento de materiais utilizados nos revestimentos, quanto nas técnicas de reparos com compósitos, o uso de materiais de resinas poliméricas, ou uso de fibra de carbono é um mundo ainda pouco explorado e ainda não normalizado. Existe uma recente aplicação de novos materiais não metálicos, com um grande potencial de uso nos dutos offshore. Outro grande desafio no segmento offshore é a inspeção e reparo de linhas flexíveis.


(Foto: Divulgação)

Oil & Gas Brasil: O novo mercado de gás e a retomada da indústria vão exigir a implementação de novas rotas e malhas de dutos. Quais são as rotas que você considera mais importantes e que devem sair do papel até meados da década?

Marcelino Guedes: Respondendo de forma bem objetiva, as rotas para o Centro-Oeste e do Sul do país, além do desenvolvimento de uma malha de distribuição de gás natural em todo o país. Temos muito que construir e sem querer polemizar a capital do nosso País não tem gás natural canalizado.

Oil & Gas Brasil: Quais os maiores desafios no que diz respeito a expansão dutoviária offshore, frente ao aumento da produção do pré-sal: água ultraprofundas, CO2 e outros contaminantes altamente corrosivos no fluído, alta pressão e alta temperaturas? O que é mais desafiador?

Marcelino Guedes: No cenário offshore o mais desafiador não são os aspectos técnicos e sim a decisão econômica, estratégica ou quem sabe política de reinjetar ou produzir para escoar o nosso gás natural. É necessário um debate nacional, envolvendo a sociedade, a indústria, a academia, para decidir se vamos continuar reinjetando nossas riquezas ou queremos fazer o transporte do GN produzido no Brasil, e assim ter uma maior oferta de gas para ser distribuído e consumido no Brasil. Podemos até abrir uma discussão, se necessitamos ou não, de um grande programa nacional para reduzir o custo de implantação de dutos submarinos no Brasil. Queremos o rota 5, o rota 6, o rota 7 e o rota X.

Oil & Gas Brasil: Fala-se muito em P&D em diversas áreas e atividades da indústria, do upstream ao downstream. Como o setor de dutos vem se beneficiando da clausula de PD&I dos contratos da ANP? Quais os projetos que vc considera mais relevantes? Há números sobre essas pesquisas?

Marcelino Guedes: No Brasil, durante décadas, os principais focos eram o setor de exploração e produção (upstream) e o
abastecimento (downstream). Era como se o midstream não existisse. Estava camuflado. Nos últimos 10 anos é que o
midstream começou a ganhar maior relevância, quando então a indústria se viu diante da necessidade de ter uma logística mais eficiente, da importância de um sistema mais robusto de escoamento, transporte e distribuição dos produtos. O segmento de midstream nos EUA é um dos mais fortes e tem presença expressiva na área de energia. Isso também vai acontecer no Brasil. Portanto, vamos precisar investir mais em P&D para reduzir os custos de implantação de dutos rígidos, bem como no que diz respeito ao gerenciamento da integridade das linhas flexíveis, para minimizar os custos da produção e os riscos ao ambiente offshore.

Oil & Gas Brasil: E no ambiente onshore?

Marcelino Guedes: As atividades de P&D devem ter uma atenção especial para tudo o que estiver relacionado com a segurança operacional, uma vez que a malha existente está muito próxima das comunidades, principalmente nos grandes centros urbanos de nosso País. Essa é uma questão muito séria, decorrente da falta de atenção à expansão urbana e ocupação dessas áreas nas periferias por onde temos as faixas de dutos.

Oil & Gas Brasil: E quanto ao transporte de hidrogênio pela malha de gasodutos, mediante algumas adequações. Isso é factível? Quais adequações demandaria tanto em termos físicos, como de controle, operação e até regulação? Quais os caminhos para viabilizar essa malha de hidrogênio?

Marcelino Guedes: E Essa é uma grande discussão e um grande desafio para toda a comunidade internacional de dutos. Existem vários projetos multiclientes em pleno andamento em vários países. A proposta é que haja um processo de transição, inserindo hidrogênio no transporte de gás natural existente. Para isso é fundamentar entender em profundidade o comportamento dos materiais dos dutos existentes na presença de H2. No Brasil temos que acompanhar e iniciar nossos projetos de transporte e uso de H2 considerando todos os aspectos, em especial a segurança operacional. Ou seja, é importante entender em que condições operacionais podemos fazer essa mistura nos gasodutos existentes em termos das variáveis de processo e as características desse produto. Os próximos anos serão de muitos desafios e de grandes oportunidades.

Oil & Gas Brasil: Por último, qual a contribuição que o setor dutoviário tem a dar para a transição energética e a descarbonização?

Marcelino Guedes: Como eu já disse antes, o duto é o modal de transporte do futuro. Quando falamos em hidrogênio, o papel do duto será fundamental. O mesmo se aplica à biomassa, aos biocombustíveis. E vamos ter de utilizar toda essa inteligência dutoviária para estocar e armazenar CO2. O duto está indefectivelmente integrado ao transporte da energia do futuro.

E com um atrativo que faz toda a diferença: sua implantação não tem o mesmo impacto de outros modais como as ferrovias ou uma autoestrada. É comprovado que o impacto é muito baixo para a flora, a fauna e até mesmo na emissão de carbono. O duto é uma atividade do futuro. Por isso deixo um recado para os jovens profissionais interessados na questão energética, para que se integrem ao Young Pipeline Professional (YPP). O primeiro grupo surgiu nos Estados Unidos, em seguida foi o Canadá e depois no Brasil e em outros países, espalhando-se pelo mundo afora. Serão eles que vão fazer a construção desse modal engajado em uma economia de baixo carbono. Sem dúvida, o duto terá um papel importante no futuro energético em nosso planeta.