Há diversos estudos e pesquisas que demonstram o impacto positivo da Diversidade e Inclusão (D&I) na inovação e no desenvolvimento da indústria de Energia. Mais ainda: na criação de valor quando se tem um time diverso, em que há diferentes experiências, perspectivas e ideias para contribuir no ambiente de trabalho. Essas mesmas pesquisas apontam a
sub-representatividade das mulheres e os obstáculos que elas enfrentam na maioria das indústrias.
D&I é um assunto que é divulgado e debatido de forma intensiva nas plataformas virtuais – a informação está disponível nas redes para quem quiser. A ideia desse artigo é mostrar como podemos aumentar o engajamento em D&I e deixar uma reflexão: o que cada um de nós está fazendo para mudar esse cenário de não equidade de gênero na indústria? Entendemos o porquê desses números tão baixos? Como podemos ajudar no processo de mudança?
WIN Energy
Dando meus primeiros passos na indústria de petróleo e gás, tanto na graduação quanto mercado de trabalho, observei que, como jovem profissional mulher, estava em minoria em uma indústria ainda majoritariamente masculina. E que residindo em Santa Catarina, a localidade não me favorecia para ingressar no mercado de trabalho na área. Apesar dos obstáculos, estimulada pelo desafio e a oportunidade de fazer a diferença, queria participar da consolidação de uma indústria de energia que contribuísse para o desenvolvimento do país. Mas, para isso se tornar realidade, sabia que não só precisaria ser ‘competente ao cubo’ e provar isso a cada segundo, sem maiores reconhecimentos e oportunidades, como também teria que usar minhas habilidades e energia para promover a mudança que eu gostaria de ver na indústria que escolhi para seguir carreira.

Mudar as percepções e cultura da sociedade e da indústria não é uma tarefa fácil e rápida. As mulheres já trabalham para a
equidade de gênero há décadas – vide o direito de voto feminino concedido no Brasil em 1932, por exemplo -, mas ajudar nesse processo é um bom começo.
Então, em 2018, eu e um grupo de mulheres nos unimos e cofundamos uma força-tarefa especial denominada Women in
Energy (WIN) Brazil para promover a Diversidade, Equidade e Inclusão na sociedade e indústria de Energia através da SPE Seção Brazil.
O WIN Brazil tem como principais objetivos promover a liderança feminina e o aprimoramento técnico profissional, trazer mais representatividade do gênero para a indústria e visibilidade às mulheres que contribuem para a ciência, estimular e disseminar o conhecimento para as meninas e mulheres em todo o ciclo da vida profissional, da escola à empresa, para que sigam seus estudos e carreiras em STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia, Matemática). Através do WIN Brazil venho contribuindo da melhor forma possível para avançar na equidade de gênero na indústria de O&G.
Como eu falo para todos que me conhecem: não poderia ser mais feliz e orgulhosa de um projeto que ajudei a criar e
desenvolver e que dá suporte a tantas pessoas. Tenho enorme satisfação em liderar o WIN Brazil porque acredito na missão
e valores que eu e meu time fomentamos nessa iniciativa e no impacto positivo na sociedade que cada um de nós pode proporcionar. O trabalho que faço em D&I é em prol da educação e equidade de gênero, utilizando a informação e o conhecimento como ferramentas; proatividade, coragem, compaixão e sororidade como guias.
Crise gera oportunidades
Mal havíamos iniciado nossas atividades quando a pandemia de Covid-19 se espalhou, impactando o mundo inteiro. O time WIN Brazil ‘colocou a mente e o coração no turbo’ para garantir que nossa força de trabalho voluntário amenizasse o caos e as dificuldades, convertendo tudo em momentos de aprendizado, contribuindo para que meninas e mulheres continuassem tendo acesso ao conhecimento e à indústria de forma gratuita e de qualidade.
Utilizamos o ambiente virtual para expandir o nosso alcance. Foi o boom do WIN Brazil: ativamos o modo “super” e com isso alcançamos mais de 15 mil pessoas em mais de 100 eventos. Ultrapassamos fronteiras, trabalhando em conjunto ou estando presentes virtualmente em mais de 80 instituições diferentes no Brasil e ao redor do mundo!
Durante esse período, conforme íamos crescendo, também observamos o surgimento de Comitês dentro das empresas, programas de recrutamento voltados às minorias e uma maior preocupação e participação da indústria com a questão da D&I. Desenvolvemos muitas parcerias com empresas do setor em nossos projetos e essa relação com a indústria se mostrou importantíssima para formar aliados para a promoção da diversidade de gênero dentro das companhias. As dificuldades e obstáculos durante os quase quatro anos à frente do WIN Brazil foram tão grandes quanto as conquistas do meu time e a satisfação de ver o esse trabalho social mudando a indústria Ainda existem muitas barreiras de gênero e estereótipos a serem quebrados para que a indústria avance e alcance todo o seu potencial, incluindo mais esforços para introduzir oportunidades no setor para estudantes e encorajar mulheres jovens a entrar no campo. Para que tenhamos mais mulheres para assumir a
liderança técnica ou de gestão, elas precisam primeiro ser estimuladas e terem acesso aos cursos STEM, por exemplo, e
durante o percurso conseguir manter seus estudos na graduação e após a universidade ter oportunidades profissionais relevantes e na área para se desenvolver e assumir funções cada vez mais altas nas empresas.
Por isso é tão importante empenhar esforços em D&I nos diversos momentos da vida das meninas e mulheres. Através do WIN
Brazil eu me comprometi nesses anos com o avanço da Diversidade, Equidade E Inclusão em diversas etapas do ciclo de vida das meninas e mulheres – desde o ensino fundamental, médio, graduação, pós-graduação, profissional júnior até a
senioridade e liderança.
WIN Brazil em ação
No ensino fundamental e médio
O Energy4me é uma iniciativa que conecta profissionais da indústria com alunos de ensino médio e fundamental com o objetivo de mostrar as carreiras nas áreas STEM, por meio de palestras. De 2020 para cá foram realizados mais de onze eventos em diferentes escolas e cidades do país, de Norte a Sul, atingindo um público total de mais de 600 pessoas, entre estudantes e professores. A representatividade das Mulheres na liderança e nas áreas STEM é um dos pilares do WIN Brasil e um passo muito importante no D&I. Oferecemos a oportunidade de os alunos conversarem com esses profissionais de alta qualificação, que tem a chance de compartilhar suas experiências, servindo de modelo para esses alunos.
Parafraseando o que disse uma Secretária Regional de Educação que participou do Energy4me realizado na Escola EJSA de Brejinho (PE), “estamos aqui para superar as dificuldades das adversidades, mostrando o quão competentes podemos ser. Nossa inspiração é ver as nossas meninas aprendendo e crescendo.”
Na universidade
Para propagar as ações WIN Brazil dentro da comunidade acadêmica nos diversos Estados brasileiros e atuar mais próxima às meninas na graduação, desenvolvi junto com Horrara Diógenes, Carla Corina, Juliana Sacramento e Ingrid Fonseca os núcleos WIN Brasil.
Eles são braços do WIN Brasil nas universidades brasileiras, com o objetivo de criar e fortalecer as conexões com a indústria e a universidade; democratizar o acesso às atividades desenvolvidas, impactando um maior número de meninas e mulheres de forma a integrá-las aos diferentes cursos; desenvolver atividades que estimulem e deem visibilidade às alunas das áreas STEM.
Temos mais de 10 núcleos ativos que trabalham com essas metas e que além de gerarem frutos positivos para a comunidade acadêmica, também oportunizam para o time do Nucleo WIN Brasil o desenvolvimento de habilidades importantes para a
carreira, como a liderança de projetos e equipes, comunicação, gestão de tempo e de tarefas ainda durante a graduação.
O Programa de Palestras “Ambassador Lecture Program” (ALP) também atingiu seu auge: é uma iniciativa que conecta
profissionais da indústria com a universidade, compartilhando conhecimento técnico e de soft skills através de palestras e
minicursos. Por meio do WIN Brasil foram organizadas mais de 45 apresentações desde meados de 2020, que alcançaram mais de 4.000 pessoas diretamente. Participei de mais de 20 ALPs como palestrante ou colaboradora e essa vivência próxima à
academia, compartilhando conhecimento e experiências práticas com as universitárias, têm um valor inestimável, tanto para quem ouve quanto para quem apresenta.
É uma oportunidade ímpar de estimular os jovens talentos e engajar com as atividades da universidade.
Na vida profissional
Para ajudar as jovens profissionais a desenvolverem as habilidades necessárias para crescer em sua função atual e se preparar para a próxima etapa de sua carreira, desenvolvi em parceria com Rafaela Rezende o Programa de Mentoria WIN Brazil. O objetivo é conectar jovens profissionais a líderes seniores do setor de Energia para promover intercâmbio de experiências, compartilhamento de conhecimento e orientação de carreira para as jovens mulheres.
O programa, com duração de sete meses, tem tema principal “Mulheres como protagonistas de sua própria carreira”. Em 2022 está acontecendo a terceira edição: até o momento o programa já contemplou mais de 50 profissionais e fez parte da mudança na vida de mais de 25 jovens mulheres.
Além disso, para fomentar o contínuo desenvolvimento técnico, promovemos capacitação técnica através de cursos com experts da indústria, trazendo temas relevantes, práticos e inéditos. É uma iniciativa de apoio ao desenvolvimento de carreira de meninas e mulheres com foco no compartilhamento de conhecimento técnico por meio de sessões de treinamento com profissionais experientes na indústria de O&G. Em três treinamentos, mais de 80 pessoas foram beneficiadas com esse conteúdo exclusivo, elaborado especialmente para essa capacitação promovida pelo WIN Brasil, e 10 diferentes profissionais foram protagonistas, compartilhando as suas experiências e conhecimentos.
Amplificando vozes para a mudança
Com esse lema, criei junto com a Isabelly dos Santos, Jhordana Vencato e Jennifer Martins projetos como as mesas redondas e debates técnicos, “Solta voz!”, “Empresas em foco”, “Elas inspiram”, dentre outros. Utilizamos as plataformas digitais do WIN Brazil, LinkedIn e Instagram para trazer profissionais diversos da indústria para compartilhar suas experiências técnicas, contribuições para a ciência e dicas especiais de carreira. Esses quadros têm como objetivo também o protagonismo e representatividade feminina, fornecendo o espaço WIN Brazil para que as profissionais possam ecoar suas vozes e conhecimento para mais pessoas.
Esse voluntariado em D&I é um trabalho extenuante, parte da tripla jornada da vida dos voluntários, poucas vezes reconhecida pela indústria e as empresas, mas é realizado com muita garra, dedicação e carinho por todos do WIN Brazil. Não seria possível inserir nesse breve artigo todas as conquistas e avanços, e nem todos os nomes que ajudaram a construir o legado do WIN Brazil, mas reitero profundamente o meu agradecimento, reconhecimento e admiração pelo trabalho de cada um nessa jornada. Iremos fazer parte de uma sociedade em que todos são valorizados e incluídos em todos os aspectos da sua experiência se diversidade e inclusão efetivamente se tornarem parte de nossa cultura. E a jornada é longa, cada um de nós tem muitos vieses (in)conscientes para desconstruir e muito a aprender, mas é preciso dar o primeiro passo. Como diria Raul Seixas, “prefiro ser uma metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”.
Acredito na educação e na conscientização como grandes agentes da mudança e fortes aliados para o avanço da diversidade de gênero na nossa indústria. Isso começa tanto no topo, com as lideranças sendo instrumento para que essa cultura permeie por toda a organização e sociedade, como também em todos os níveis e em cada local.
Embora as lideranças e indivíduos com poder de decisão tenham uma responsabilidade direta de fomentar essa transformação,
todos compartilhamos dessa responsabilidade e temos a oportunidade de causar impacto.
E você, já tomou uma posição pela mudança?
Nota: Caso você, leitor, tenha interesse em ajudar em alguma das iniciativas mencionadas nesse artigo, fique à vontade para se
juntar a nós em nossas redes sociais (e-mail, LinkedIn ou Instagram) e entrar em contato.


Eduarda Maria Zanetti é engenheira de petróleo e mestranda nessa área na COPPE-UFRJ. Engenheira de Integridade e Gerente de projetos na Wood, tem experiência na área de integridade de dutos, equipamentos submarinos, poço, e embarques Offshore. Ama engenharia e pessoas: trabalha na área técnica, mas há alguns anos se dedica também à liderança e gerenciamento de pessoas.





























































