O que está por trás da transição energética que tanto se fala hoje? A sua necessidade veio porque a energia fóssil está acabando ou não cumpre o seu objetivo? Lógico que não, o petróleo e o carvão não vão acabar tão cedo, mesmo que esteja ficando cada vez mais difícil de alcançá-los.
A necessidade da transição energética vem do fato de que o nosso planeta está
superaquecendo. Este aquecimento global é atribuído às emissões de gases de efeito estufa pelo homem para a
atmosfera. E grande parte destas emissões globais provém da necessidade de gerar energia (gráfico abaixo). Ou seja,
precisamos passar de uma matriz energética focada nos combustíveis fósseis para uma com baixa ou zero emissões de carbono, baseada em fontes renováveis.

Brasil: Quem gera mais emissões
E as emissões brasileiras? Seguem este padrão acima? Não, longe disso. O gráfico abaixo apresenta o padrão das emissões
brasileiras. Fica claro que as emissões brasileiras devido a geração de energia representaram um pouco mais de 30% do total. A
agropecuária e a forma como o país lida com as suas terras e florestas representam juntas bem mais missões que nossa geração de energia.

A razão? O Brasil possui uma das matrizes energéticas mais renováveis do planeta. Dados da International Energy Association (IEA), ano base 2018, indicam que enquanto na matriz energética mundial somente 14% da geração de energia foi oriunda de fontes renováveis, no Brasil este número foi de 45%. Logo, 45% da nossa geração de energia não produziu emissões de gases de efeito estufa.
Mais ainda: se formos focar somente na geração de eletricidade, enquanto no mundo 25% dessa geração foi feita a partir de fontes renováveis, no Brasil este número sobe para 83%. Portanto, somente 17% da nossa geração de eletricidade produziu
emissões em 2018.
Ou seja, a transição energética, levando-se em consideração a sua razão original, que é focar em uma matriz energética mais renovável, não é de fato um problema do nosso país. Notem que não estou dizendo que não devemos buscar junto com o resto do planeta por uma matriz cada vez mais sustentável e menos dependente do consumo de recursos naturais. Só estou dizendo que estamos avançados neste processo.
Matriz Elétrica
O problema do Brasil, hoje, é outro. Basta aferir a composição da nossa matriz elétrica.

De fato, é uma matriz altamente renovável, mas totalmente concentrada na fonte hídrica. Dependemos demasiadamente das nossas hidrelétricas para gerar eletricidade. E devido a esta dependência, estamos passando dificuldades devido à crise
hídrica que vivemos no Brasil hoje.
Crise que é resultado de vários anos com volumes de chuvas inferiores ao necessário no Sudeste e Centro Oeste do país, onde encontramos a maior parte da nossa capacidade de armazenamento de energia hidrelétrica.
Quase que dependemos da “dança da chuva” para garantir a nossa eletricidade.
O Brasil é um bom exemplo para mostrar que não basta
somente ter matrizes energética e elétrica altamente
renováveis: é preciso ter diversificação das fontes com baixa ou zero emissões de carbono. E novamente, o “país dos
potenciais” tem tudo para ser protagonista.
Potencialidades
O país tem um regime de ventos e incidência solar excelentes. Não é à toa que a energia eólica e a energia solar fotovoltaica avançam a passos largos no país. Sem dúvida são casos de sucesso, com bilhões de reais já investidos e muitos ainda por vir.
De acordo com o Plano Decenal de Expansão de Energia 2030 da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), a evolução da oferta existente e já contratada das energias solar e eólicas juntas irá passar de 11% em 2021 para 16% da nossa matriz elétrica em 2030.
Gerar energia a partir do lixo e resíduos orgânicos é uma ideia fascinante, pois geramos um bem valioso a partir de algo que é um grande passivo ambiental: o que fazer com o lixo e dejetos?
O potencial do biogás para geração de eletricidade é enorme. Já é realidade em vários aterros sanitários do Brasil, mas ainda precisamos caminhar bastante quanto aos resíduos orgânicos das nossas produções agrícolas e criação de animais, que é onde está o grande potencial do país. Com o custo da energia elétrica hoje em dia, parece que finalmente o mercado está olhando para o biogás com a atenção que ele merece.
Eólica Offshore é outro grande “potencial” brasileiro. Se o regime de ventos em terra no país já é bom, no oceano é ainda melhor. Decreto recente do governo abrindo o caminho para o mercado e mais de 80 GW em projetos aguardando aprovação do IBAMA, indicam que estamos chegando perto de iniciar no país um grande mercado – que já é maduro em vários lugares do planeta. Eletricidade, investimentos e muitos empregos estão ganhando força.
Energia das ondas, das correntes marítimas é outra alternativa. Um país com o tamanho do litoral que temos devia explorar estas fontes de uma forma relevante. Energia limpa e inesgotável.
Gás Natural, O Energético da Transição
Fóssil sim, mas tenham em mente que é a geração de eletricidade pelas termelétricas que estão nos salvando de um racionamento no país. E ter acesso a energia é tão ou mais importante que a transição para uma geração de energia mais renovável.
Portanto, novas termelétricas a gás natural são bem-vindas sim. E só o fato delas permitirem, em algum momento no futuro, a parada das termelétricas a carvão e outros combustíveis bem mais emissores que o gás natural, já será uma grande contribuição na nossa transição.
E ainda poderíamos falar do hidrogênio azul, do hidrogênio verde, outros grandes “potenciais” brasileiros. A energia do futuro, onde também já estamos vendo bons sinais de desenvolvimento no país.
De acordo com estudos feitos para o Plano Decenal da EPE, já mencionado, a demanda total por eletricidade, considerando o cenário de referência, irá aumentar de 540 TWh em 2020 para 792 TWh em 2031. Um crescimento médio de 3,5% ao ano.
Se as dificuldades já existem hoje, fica claro que devemos trabalhar todas as possibilidades de geração de energia disponíveis para garantir não só o atendimento de toda esta demanda, mas também para dar o devido suporte à intermitência das chuvas, do sol e do vento.
E baseado em tudo que foi mencionado aqui, temos condições sim de diversificar, e muito, a nossa matriz elétrica. Sem dúvida, um problema muito maior para nós brasileiros do que a transição energética em si.
Recentemente a União Europeia apresentou o documento final para incluir projetos de gás natural e energia nuclear na
taxonomia de financiamento sustentável da União Europeia (UE). O que isso quer dizer? Que a UE está incluindo estas fontes em critérios verdes para alcançar suas metas de neutralidade de carbono em 2050.
Apelação da UE? Eu diria que é uma constatação de que não será possível substituir todas a energia fóssil almejada e ainda
atender todo o aumento de demanda por energia. Ou seja, é a UE priorizando garantir aos seus cidadãos o acesso à energia.
E é exatamente o que devemos fazer por aqui. Garantir que os brasileiros tenham acesso a eletricidade que necessitam.
Antonio Souza é executivo com mais de 30 anos de experiência no mercado de O&G. Engenheiro naval formado pela UFRJ e MBA em gestão pelo IBMEC-RJ. Atuando no Brasil e no exterior, já ocupou várias posições técnicas, de gestão de projetos, desenvolvimento de negócios e gestão empresarial, direcionadas ao upstream, midstream e transição energética.