Eleita uma das 100 Mais Influentes da Energia da Década, a CEO da Companhia Potiguar de Gás (Potigás), Larissa Dantas, vem sendo uma das principais protagonistas no novo cenário do gás natural no país. Engenheira civil (UFRN) e advogada (UNI-RN), com atuação profissional tanto na área operacional como na de gestão, ela está no comando da Potigás desde fevereiro de 2019. Com forte atuação nesse setor, bem como na implantação do REATE, com foco no onshore da bacia Potiguar, Larissa é uma das lideranças que que está fazendo o novo mercado de gás acontecer.
Oil & Gas Brasil: O RN terá a primeira legislação que regula serviços locais de gás canalizado, com o Projeto de Lei que estabelece normas para exploração desses serviços. Em que etapa está esse projeto de lei?
Larissa Dantas: A minuta do projeto de lei foi elaborada no início de 2020. Com a criação do programa Novo Mercado de Gás, do Ministério de Minas e Energia (MME), em julho de 2019, prontamente a equipe da Potigás se organizou para elaborar essa minuta. Em janeiro de 2020 começamos um processo de consulta dessa proposta junto a outras distribuidoras, principalmente do Nordeste, e contamos ainda com o suporte de Zevi Kann, sócio–diretor da Zenergas Consultoria, um grande especialista na área da regulação de gás no país. O projeto está pronto no gabinete civil do governo estadual para ser apresentado para a assembleia legislativa. Esperamos que nossas explicações e todas as informações de ordem técnica sejam convincentes para que o projeto seja aprovado como foi concebido.
Oil & Gas Brasil: Quais os grandes impactos que essa iniciativa irá trazer para o estado? E para o mercado de gás como um todo?
Larissa Dantas: Primeiro, teremos a figura do consumidor livre, que permitirá que qualquer cliente com consumo maior que cinco mil metros cúbicos possa comprar direto do fornecedor, sem a interferência da Potigás. Pode até parecer um contrassenso, mas o foco da companhia é prestar serviço de distribuição de gás para o estado, não comercializar. Faz isso hoje porque só tem ela para fazer esse serviço. A ideia é que com o novo mercado de gás surjam os comercializadores: os produtores vão poder vender direto ao consumidor e a Potigás ganha na tarifa de distribuição do gás canalizado, por meio da nossa rede de distribuição.
Oil & Gas Brasil: Como a maioria dos estados brasileiros, o Rio Grande do Norte não possui uma legislação estadual que regule os serviços de distribuição de gás natural canalizado, feito pela Potigás, detentora da concessão. Você, como CEO da Potigás e com sua tripla formação (engenheira civil, com pós graduação em processo civil e ainda Gestão Estartégica de Empresas, tem atuado fortemente nesse sentido. Como você e a Potigás assumiram esse protagonismo?
Larissa Dantas: A Potigás é uma empresa que tem um forte vínculo com a secretaria de Desenvolvimento Econômico (SEDEC) do estado. Ocorre que, evidentemente, por trabalhar com gás natural há muitos anos, toda a equipe da Potigás detém grande expertise. Assim, foi um processo natural a Potigás participar na elaboração do projeto de lei, e fazer o estudo inicial, até
mesmo pelo networking que ela tem com as demais distribuidoras do país, notadamente com as do nordeste, graças ao ótimo trabalho coordenado da Associação Brasileira das Empresas Distribuidoras de Gás Canalizado (Abegás), que também nos deu grande suporte.
Oil & Gas Brasil: No dia 17 março de 2021, a Câmara dos Deputados aprovou o novo marco regulatório do setor de gás (PL 4476/20), que estabelece medidas como a desconcentração do mercado – na prática, a quebra do monopólio do setor. Ou seja, uma mesma empresa fica impedida de atuar em todas as fases – da produção/extração à distribuição. A proposta será enviada à sanção presidencial. Qual sua avaliação sobre essa questão? De que forma ela impacta companhias como a Potigás?
Larissa Dantas: A sanção presidencial aconteceu no dia 8 de abril e, para a Potigás, ela impacta muito positivamente pelo fato de lá constar um artigo que fala do livre acesso de terceiros para as unidades de processamento de gás no Brasil. É um assunto que a Potigás assumiu como seu no sentido de articular e desenvolver o novo mercado de gás no estado potiguar e essa lei torna mais forte e seguro que isso aconteça nos demais estados. No caso do Rio Grande do Norte, o que ocorria era que o Termo de Cessação de Conduta (TCC) que a Petrobras tem com o CADE neste assunto específico não estava sendo cumprido ou pelo menos, não com a urgência necessária. Daí o desenvolvimento de um trabalho que culminou com a publicação da Norma Técnica nº2 de 2021 (NT2/21) da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Ela, reflete esse trabalho coordenado pela agência com o MME, os produtores e distribuidores, e que teve a participação da Potigás. O objetivo era equacionar todas as questões de cunho prático, técnico e até tributárias, para que fosse concedido o acesso livre acesso à Unidade de Processamento de Gás Natural (UPGN) de Guamaré. Foi uma grande vitória para todos nós e que teve uma atuação efetiva da governadora Fatima Bezerra, que conversou pessoalmente com a diretoria geral da ANP na época e a presidência do CADE, além de diversas reuniões com o presidente da Petrobras. Dessas reuniões, saíram os resultados efetivos que foram consolidados na NT2/21 no início desse ano.

Oil & Gas Brasil: O gás natural é distribuído exclusivamente no Rio Grande do Norte pela Potigás, que conta com quase 450 mil metros de gasoduto em Natal, Mossoró, Parnamirim, São Gonçalo do Amarante, Macaíba e Goianinha. Quais os planos da empresa para reforçar a posição no mercado nesse novo cenário?
Larissa Dantas: Neste momento, a Potigás trabalha para dinamizar o novo mercado de gás, atuando como braço do
governo estadual, através da secretaria de desenvolvimento econômico para que haja mais fornecedores e, consequentemente, um mercado mais competitivo, com tarifas mais competitivas para o consumidor final. Notadamente, a Potigás tem a expectativa de ter um custo muito competitivo para a indústria. Também estamos atuando em outro movimento, visando ampliar a participação do GNV no transporte pesado, como caminhões. Nosso grande sonho é que a frota urbana volte a utilizar o GNV massivamente, como já aconteceu na capital, no início da década de 90. Pretendemos retormar isso. A pandemia, evidentemente, criou um cenário inesperado, mas estamos tentando readequar o nosso planejamento
estratégico tendo em vista esse trabalho com foco no GNV. Inclusive, a nossa campanha institucional está bem focada nele. A ideia é que o RN torne-se um polo industrial, pois temos matéria-prima muito boa para a indústria cerâmica, por exemplo, que consome um volume significativo de gás natural como fonte de energia. Com uma tarifa competitiva, esperamos atrair essas indústrias, que contam ainda com o Programa de Apoio ao Desenvolvimento Industrial pelo Incentivo do Gás Natural (RN GÁS MAIS), que criou incentivos tributários para as indústrias que aqui se instalam.
(Foto: Divulgação)
Oil & Gas Brasil: O Rio Grande do Norte ainda tem o gás mais barato pelo fato de ser uma produção local (o estado é o segundo maior produtor onshore)?
Larissa Dantas: Há controvérsias sobre essa questão: hoje mesmo eu recebi uma planilha de um cliente que dizia que nós tínhamos o gás mais caro do Brasil. Eu fui olhar a planilha com calma, pois tudo depende do ponto de vista da análise. Em termos gerais, esperamos que esse gás fique mais barato para o consumidor, por ser um gás onshore (o que barateia o custo), além de outros fatores, pois além do programa do Novo Mercado de Gás, há outras iniciativas, como o REATE, de incentivo à produção de óleo e gás em terra, que atraiu novos investimentos.
Oil & Gas Brasil: Como fazer que o acesso fácil ao gás potiguar continue a ser um dos marcos energéticos do estado?
Larissa Dantas: Primeiro, precisamos fazer com que o novo mercado de gás comece a funcionar no dia 1º de janeiro de 2022. Essa é a nossa meta. O objetivo era fazer isso acontecer em 2021, mas a pandemia não deixou. A gente não abre mão dessa meta para 2022. Já temos empresas habilitadas na chamada pública feita há pouco tempo, inclusive, concomitante com outras distribuidoras do nordeste. Esperamos ter, até o final de julho, contratos assinados com pelo menos mais um novo fornecedor de gás natural no RN que não a Petrobras. Essa é a expectativa. E tem mais: embora acreditemos que o gás local seja mais barato, nada impede que também seja competitivo recebermos um Gás natural liquefeito (GNL) aqui, desde que a molécula fique mais barata, para entregarmos ao consumidor. Claro que gostaríamos que a indústria local fosse beneficiada, mas em primeiro lugar está o consumidor. Principalmente o consumidor industrial, o consumidor de GNV e, por que não dizer, o consumidor comercial , como lavanderias e hotéis, pois o trade turístico tem uma importância muito grande na economia do estado.
Oil & Gas Brasil: Em julho de 2019, o MME criou o Programa do Novo Mercado de Gás que incentiva os estados brasileiros a criarem suas leis locais de regulamentação do gás natural canalizado. E foi no RN que aconteceu a primeira MESA REATE – fórum nacional de discussão do Programa de Revitalização da Atividade de Exploração e Produção de Petróleo e Gás Natural em Áreas Terrestres (Reate 2020), do Governo Federal, durante a Mossoró Oil & Gas Expo, em novembro de 2020. Mais uma vez o RN está protagonizando um movimento que vai mais além do gás natural, e sim de todo o segmento de E&P de petróleo. Qual a expectativa de um reposicionamento do estado no cenário nacional de óleo e gás?
Larissa Dantas: Temos uma expectativa muito positiva, mas estamos cientes de que o estado é pequeno e percentualmente não vai ter um grande peso no que diz respeito ao volume nacional de gás e de óleo. Entretanto, nós transformamos nossas fraquezas em forças. Como? Pelo fato do estado ser menor, temos uma burocracia mais fácil de ser gerenciada, com mais velocidade no funcionamento. Disso, nasceu o nosso pioneirismo. Na verdade, a necessidade nos ensinou a correr,
antever os problemas e gerenciá-los, já antevendo o que vai acontecer no futuro. Se podemos antecipar o que vem por aí e resolver antes, tanto melhor. É dessa forma que a gente vem trabalhando, como vetor de desenvolvimento do estado do RN, uma das missões da Potigás, além de atuar como uma compainha distribuidora de gás natural canalizado no estado.
Oil & Gas Brasil: Vocês são o maior produtor de energia eólica do Brasil, resultado da ampliação dos investimentos do Governo do Estado nessa área. Com a aprovação da lei citada acima, qual deverá ser a matriz energética potiguar até o final dessa década?
Larissa Dantas: A energia eólica não vai deixar de ser a maior fonte de energia do estado, até porque é o maior parque eólico do país. E vemos o gás natural muito atrelado à ela, por ser uma fonte de backup, já que a eólica é uma energia intermitente, assim como a solar, que também é forte no estado. Então, a matriz energética potiguar vai ficar muito focada em renováveis, também com essa pegada de carbono.
Acredito que no final dessa década ainda estaremos dessa forma. Penso que somente no final da década de 30 teremos uma matriz quase sem energia fóssil, uma vez que em 20 anos deverá se encerrar a exploração onshore que está acontecendo hoje.
Entretanto, vale lembrar que também temos petróleo e gás offshore e ainda há reservas não exploradas. De toda forma, acreditamos que a matriz energética potiguar vá ficar com mais de 50% de energias renováveis pois, além do gás natural, está chegando o biogás e o hidrogênio verde.
Oil & Gas Brasil: Será um estado cada vez mais ‘verde’, em termos de energia…
Larissa Dantas: Sim, ele tem uma tendência muito grande para ter uma matriz energética verde. Mesmo o gás natural, que é um combustível fóssil, também tem uma emissão de carbono baixa. Com o petróleo que ainda é produzido aqui e o que vai ser
produzido pelos próximos 20 anos, a expectativa é que as empresa que já atuavam cresçam, assim como os investimentos. Por ser uma indústria muito significativa para o estado, lamentamos muito a saída da Petrobras, achando que perderíamos investimentos. Mas os investimentos continuam a chegar, os empregos estão sendo criados e haverá sim geração de riqueza nos ativos que a Petrobras desinvestiu. Não igual, evidentemente, porque também estamos em outro momento de mundo, da economia, principalmente depois da pandemia. Mas, acreditamos que a matriz energética terá ainda a participação de energias fósseis nos próximos 20 anos, ainda que seja cada vez mais verde.

































































