Nosso entrevistado é Head de petróleo e gás da Siemens no Brasil , Christian Schock.
Oil & Gas Brasil: Quais as perspectivas da Siemens para 2020, no setor de petróleo e gás no Brasil?
Christian Schock: Há grande expectativa para 2020 e não é à toa. Externamente e especificamente no Brasil, as
perspectivas são promissoras para o setor de petróleo e gás por conta de alguns fatores, como entrada cada vez maior de IOCs (International Oil Companies) para investimentos offshore e o foco da Petrobras na monetização das jazidas do pré-sal, resultando em um volume interessante de FPSOs em lançamento.
Adicionalmente, devemos ver também mudanças no midstream e downstream, especialmente através de transporte e novos players no refino. Quando falamos de gás, estamos discutindo energia e um mercado pouco desenvolvido no país. Além das reservas em terra, o Brasil deixa de monetizar milhões de dólares ao dia reinjetando gás nos campos offshore.
O que estamos observando hoje é um cenário da indústria se preparando para desenvolver o transporte, a geração e
distribuição de gás enquanto o governo prepara regulamentação legal dada a importância do assunto.
A Siemens acompanha esta preparação desenvolvendo produtos, soluções e planos estratégicos com parceiros, reforçando a infraestrutura do Brasil assim como fazemos há 152 anos, quando lançamos a primeira grande linha de telegrafo do país. Nossos produtos e soluções incluem desde serviços de engenharia e análise de viabilidade, passando por equipamentos de alta eficiência, com combustíveis renováveis e baixas emissões de carbono, até a garantia de disponibilidade em fornecimento de energia “as-a-service”. Em planos estratégicos de infraestrutura, analisamos como podemos contribuir com soluções tecnológicas para maximizar resultados em investimentos e operações de nossos parceiros, ou sermos os protagonistas em novas termoelétricas como o projeto de Porto do Açu, no Rio de Janeiro. O portfólio soft e hardware da Siemens nos permite estar numa posição privilegiada em relação ao setor energia, contribuindo com o país, nossos parceiros e para a comunidade.
Oil & Gas Brasil: Quais os investimentos que a empresa pretende fazer neste segmento?
Christian Schock: No segmento de energia, a Siemens investe atualmente em infraestrutura de geração com capacidade de
1.3 GW e futuramente com mais 1.6 GW a partir de gás natural no projeto GNA, em Porto do Açu, no RJ. Adicionalmente,
trabalhamos em um projeto de geração elétrica para a cidade de Coari, AM, por meio de uma planta de geração de energia em ciclo combinado, também através de gás, oriundo de Urucu, e que oferecerá à comunidade local uma energia mais limpa e estável. No âmbito industrial, construímos atualmente uma planta de geração dentro uma tradicional unidade química em SP, onde assumiremos toda a responsabilidade sobre energia a longo prazo, além de reduzir a pegada de carbono e melhorar a utilização de água.
Além destes projetos, e especificamente em petróleo e gás, a Siemens possui uma robusta base fabril e de aftermarket para atender o mercado. Baseado em fábricas e centros de serviços em SP e RJ, fabricamos equipamentos de geração e compressão para plataformas offshore com relevantes níveis de conteúdo local, além de equipamentos subsea e toda a engenharia envolvida no setor. Atualmente, estamos fabricando equipamentos para as FPSOs de Búzios V e Mero II, utilizando unidade fabril pré existente. Nossos investimentos nesta área são voltados ao desenvolvimento ou reativação de fornecedores locais e incremento com treinamento de pessoal.
Globalmente, a Siemens investe pesadamente em Digitalização, oferecendo ao mercado soluções inovadoras de gêmeo digital, IoT, analytics, machine learning, big data, entre outros e registramos mais de uma patente por dia e somos líderes no mercado de software. Além disso, focamos em eficiência e combustíveis alternativos, com turbinas operando com hidrogênio ou biomassa para redução das emissões de carbono e melhoria da eficiência energética. Isso sem contar outras linhas de renováveis como eólica, solar, veículos elétricos, sistemas para gestão de energia, medição inteligente e outros.
Oil & Gas Brasil: De que forma você vê os resultados dos leilões da ANP?
Christian Schock: Há um tom de crítica do mercado em relação ao último leilão de campos offshore ocorrido em novembro. Minha preferência é considerar na análise os leiloes conduzidos em 2018 e 2019 para termos uma visão mais abrangente. Nestes dois anos, vimos empresas voltando ou entrando no país para conduzir investimentos vultuosos. Estimo que mais de 10 empresas se comprometeram em bilhões de dólares para acessar os campos offshore do país, sem contar todo investimento nas unidades de exploração e produção, perfuração e associados. Na minha perspectiva, estes leilões tiveram muito sucesso na atração deste capital para o Brasil e irão oferecer oportunidade a milhares de empresas brasileiras, sem considerar a mão de obra direta e indireta envolvida. Aos campos que não foram leiloados, observamos intenção da ANP e do governo em revisar os processos e condições para em breve conduzir novas ofertas.
Ao mesmo tempo, e não menos importante, vimos também nos últimos meses significativos leilões de blocos terrestres incluindo foco em gás, onde novamente milhões de dólares foram comprometidos por inúmeras empresas nacionais e estrangeiras. Da mesma forma que no offshore, estes investimentos trarão benefícios volumosos ao país, seja na monetização direta destes recursos ou no benefício indireto de arrecadação, infraestrutura do país ou mudança da matriz energética.
Oil & Gas Brasil: Na sua visão, qual é o melhor regime para o Brasil. O de partilha ou o de concessão?
Christian Schock: Cada regime possui seus pontos positivos e negativos, portanto não apontaria vantagem competitiva de um regime sobre o outro. O que o mercado busca é segurança jurídica, previsibilidade dos investimentos e proteção aos seus investidores. Por isso, acredito que ambos os modelos podem passar por ajustes como a definição de royalties de acordo com preços e rentabilidade, a criação de faixas de excedentes adequadas ao valor atual do barril de petróleo, a utilização de bônus para excedente de conteúdo local, etc. Modificações deste tipo, alinhadas a uma desburocratização e manutenção de regulamentação, podem tornar as ofertas mais competitivas.
Oil & Gas Brasil: Quais as oportunidades e desafios que a Siemens vislumbra no pré-sal, em 2020?
Christian Schock: A Siemens atua indiretamente no pré-sal desde o primeiro projeto para esta área denominado Replicantes, quando a Petrobras adquiriu 80 trens de compressão e 32 trens de geração para oito FPSOs. Através das marcas Dresser-Rand e Rolls-Royce, parte hoje da Siemens, fabricamos todos estes equipamentos de 2011 a 2017 no Brasil. Na época, foram investidos mais de USD 60 milhões em fábricas locais, além de treinamento de pessoal e desenvolvimento de fornecedores. Sob este contrato fabricamos compressores de alta pressão de descarga, executamos testes nunca antes conduzidos no país e entregamos equipamentos com alto teor de conteúdo local, tornando o caso um exemplo de localização de sucesso.
Em 2020 temos o desafio de fornecer equipamentos de compressão e geração em contratos existentes e também de
auxiliar nossos parceiros a criar os melhores designs para soluções em upstream, midtream ou downstream, utilizando
engenharia, produtos, serviços, digitalização e soluções combinadas usando o vasto portfólio da Siemens. Há diversas oportunidades no mercado para 2020, e a Siemens pretende manter sua liderança em inovação no mercado de energia,
mantendo forte presença no mercado local.
Oil & Gas Brasil: O país vem passando por uma crise, como você enxerga a iniciativa do governo em abrir o mercado brasileiro?
Christian Schock: De fato observamos um direcionamento protecionista da maioria dos países e particular disputa entre EUA e China atualmente. O Brasil está numa situação de interessante relação com ambos os países e promovendo abertura de seu mercado. A Siemens tem interagido com entidades governamentais no sentido de dividir seu conhecimento dada sua condição de empresa global. De uma maneira ou outra, a Siemens acompanhará as mudanças e manterá seu foco em crescimento local, suporte às entidades e à comunidade.
Oil & Gas Brasil: Como você vê a entrada de novos players no mercado de exploração e produção de petróleo e gás no Brasil?
Christian Schock: A entrada de novos players no mercado de petróleo e gás brasileiro exemplifica o interesse das grandes empresas em explorar os campos locais, de alta qualidade de óleo e quantidade absoluta. Em adição, o mercado de gás se mostra bastante atrativo para novos entrantes, principalmente no onshore, onde o transporte até a monetização requerem
atualmente investimentos menos representativos que o offshore.
Como resultado destes investimentos, o Brasil verá maior volume de projetos anualmente, maior desenvolvimento tecnológico e arrecadação. O ponto sobre evolução tecnológica é bastante representativo, pois progressivamente torna o mercado de petróleo e gás brasileiro mais competitivo e sustentável, especialmente se alinhado com políticas que fomentem o mercado local.
Com maior eficiência de maquinário, contribuições digitais e combinação de tecnologias convencionais e renováveis, a Siemens continua sua jornada com objetivo de suportar a transição energética da forma mais sustentável possível. Por este motivo, temos trabalhado incansavelmente no desenvolvimento tecnológico em colaboração com nossos parceiros – novos e tradicionais players.
Oil & Gas Brasil: O que a indústria 4.0, pode agregar para a melhoria das empresas de petróleo?
Christian Schock: A transformação digital é uma evolução natural e necessária do setor de petróleo e gás e creio que haja um consenso da indústria a este respeito. No entanto, a implantação ainda caminha mais vagarosamente do que a tecnologia avança. Em função de tanta visibilidade para o assunto, de casos de sucesso existentes e especialmente dos benefícios da indústria 4.0, é esperado que as empresas tomem passos mais arrojados em direção à digitalização. A Siemens tem promovido tais inovações frequentemente e nossos parceiros tem demonstrado cada vez mais apreço pela tecnologia disponível. No mercado de Óleo e Gás a eficiência é chave, e por isso a transição para Industria 4.0 é fundamental. Além de reduzir custos de Capex e principalmente Opex, a digitalização permite eliminar riscos de projeto, de segurança no trabalho e de imprevisibilidade de ativos. Por último, e talvez ainda mais representativo, o aumento de eficiência se traduz em menores emissões.
Entretanto, é comum observar alguns players do mercado organizando departamentos de digitalização e contratando grupos de pessoas para desenvolver a capacidade digital. O problema é que as empresas trabalham em silos, desprezando material já desenvolvido ao invés de co-criar com outras empresas. A Siemens promove a utilização de tecnologias já disponíveis e promove foco na aplicação real das soluções, especialmente em virtude de sua grande expertise na área. Obviamente, para desafios ainda intocados, a co-criação com companhias e startups com expertise na área deveriam ser consideradas antes de iniciar grandes programas de desenvolvimento interno. A co-criação é o caminho ideal para para a pavimentação do desenvolvimento digital e empresas com vasta expertise em digital serão extremamente úteis, pois trazem conhecimento e parceiros certos para a sala de desenvolvimento.

Foto: Divulgação
Oil & Gas Brasil: O mercado de petróleo e gás tem mão-de-obra especializada para a indústria 4.0?
Christian Schock: Potencialmente sim, mas existe uma lacuna a ser coberta pela indústria. Eu separaria a mão de obra atual deste mercado em três grupos: (I) número pequeno de especialistas em digitalização e petróleo e gás, que não atenderá a demanda do mercado; (II) profissionais com vasta experiencia em petróleo e gás mas não versados em digitalização, grupo que conta com um número considerável de profissionais mas em grande parte em meio ou final de carreira; (III) profissionais
jovens altamente versados em digital e cybersecurity, mas que nunca se envolveram com petróleo e gás. O motivo desta lacuna é que a indústria de petróleo e gás não atrai jovens como outros mercados, mas é justamente a digitalização que tem o maior poder de atração para estes novos talentos. Unir o know-how do grupo II à energia e criatividade do grupo III é a chave para que tenhamos mão de obra especializada em digitalização trabalhando no mercado de petróleo e gás.
Um exemplo interessante são os HackaSiemens. Nestes eventos, trazemos desafios de nossos clientes ou parceiros do mercado e abrimos inscrições para jovens programadores motivados por novidades. Em todos os eventos os resultados são excepcionais. Os jovens saem conhecendo mais sobre a indústria de energia, nossos clientes com soluções para seus desafios e a Siemens satisfeita de contribuir com ambos, além de promover sua plataforma digital Mindsphere.
Oil & Gas Brasil: Quais os benefícios que a exploração do pré-sal vai trazer ao Brasil no longo prazo?
Christian Schock: A produção do pré-sal, combinada com produção de campos pós-sal e maduros, pode elevar o Brasil ao um dos maiores produtores mundiais. Em adição a isto, a eventual monetização do gás do pré-sal poderia reduzir consideravelmente o custo de gás no Brasil e, consequentemente, o custo de parte da geração de energia, além de fazer do Brasil um potencial exportador de gás.
Além disso, a indústria local ganhará um amplo leque de oportunidades de negócios para empresas direta e indiretamente ligadas a energia. Já para a comunidade, estes fatores podem resultar em melhorias de infraestrutura e contribuição para o crescimento econômico do país. Vale observar o desenrolar do mercado e quanto das expectativas serão concretizadas.

































































